quinta-feira, 5 de maio de 2011

A feia, a loira e o Livro

(Este conto é uma resposta ao "Felicidade Clandestina" de Clarice Lispector)
Autora: Thyare Santana

Todas as manhãs eram uma verdadeira tortura para mim. Só de pensar em ir ao colégio me dava um desespero danado. Não por não gostar de estudar, isto até que eu fazia bem, mas o que me aterrorizava mesmo era entrar na sala de aula e encarar os meus colegas. Todos me apontavam, riam de mim e faziam comentários jocosos a meu respeito. Uma vez, ao entrar na sala, vi uma caricatura minha desenhada na lousa. Como meus colegas me viam! Desenharam-me excessivamente gorda e feia, algo já ultrapassando o assustador. Assim que me viram, todos caíram na risada, sem exceção. E nenhum deles percebeu que eu saí chorando e fiquei horas sentada, escondidinha, embaixo da escada que havia perto do almoxarifado. Em outra ocasião deparei-me com um cartaz afixado no mural da cantina com os resultados da votação da “miss baranga do colégio” Será que você, amigo leitor, poderia imaginar quem era a eleita? Euzinha aqui. Com apenas 10 anos eu sentia o peso do preconceito em minhas costas.
Para todos, eu sempre fui o motivo das piadas, principalmente para as meninas, que ao invés de aceitarem a minha amizade, me rechaçavam como um cão sarnento. Não sei o que se passava na cabeça delas, mas parecia que ser minha amiga dava a elas um título que elas não queriam ostentar no colégio, e que elas iriam passar então para o círculo das execradas socialmente.
Por muitas vezes eu tentei me aproximar, porém sem êxito algum. Quando chegava junto da roda de garotas, todas elas faziam cara feia e comentavam coisas do tipo “lá vem a Maria Medonha” ou até pior.
Elas só lembravam-se de minha existência quando tinha algum trabalho escolar para fazer. Como aqui em Recife só havia uma biblioteca, e mesmo assim esta era longe do bairro em que estudávamos e morávamos, elas chegavam a mim, só porque meu pai tinha uma livraria. No início eu aproveitava estes momentos, achava que isto poderia me ajudar a conquistar algumas, ou pelo menos uma amiga na escola. Eu acreditava que ao conhecer-me a fundo, elas iriam ver que eu sou uma pessoa muito legal e que tinha muita coisa boa para compartilhar. Mas assim que terminavam-se os trabalhos e eu não servia mais aos seus interesses, elas me relegavam novamente ao papel de João-bobo da classe. E assim eu sofria, só por não ter a sorte de ter nascido esguia e de cabelos lisos como elas.
Assim, aos poucos, eu fui me fechando mais e mais em mim mesma. Eu tinha o acesso a coisas que elas não poderiam ter, até mesmo por conta da minha condição financeira, mas de nada valia isto se eu não tinha com quem dividir tudo. Nem as minhas balas. Eu as chupava sozinha e com voracidade, acho que de certa forma para desviar minhas frustrações pueris para o sabor destas coisinhas doces. É claro que eu poderia dividir com outra pessoa tudo que eu tinha, chamar para passar o fim de semana lá em casa, emprestar meus livros, compartilhar minhas guloseimas... mas eu queria fazer isto com alguém que fosse realmente minha amiga, que gostasse de mim pelo que eu era e não apenas pelas vantagens materiais que a minha amizade poderia oferecer.
Até que um dia meu pai me deu “Reinações de Narizinho” de Monteiro Lobato. Nunca tive vontade de ler, até porque o que eu queria mesmo era poder ter uma vida normal como qualquer criança, que tem seus amiguinhos e brinca com eles. Eu tinha uma colega que adorava ler e me pediu este livro emprestado. Aliás, eu tinha falado propositalmente que tinha este volume, sei lá por que, talvez por insegurança quanto a mim mesma, usando isto como uma forma de “afirmação pessoal”.
Eu mandei que ela fosse lá em minha casa buscar o livro. Mas é claro, eu queria que antes que eu o emprestasse, ela pudesse mostrar que realmente queria ser minha amiga. Que ela estava sendo sincera naquela “reaproximação”. Quando eu então sentisse que ela estava indo lá não só por aquele objeto, e sim para me visitar, me chamar para brincar e fazer outras coisas, eu o emprestaria. Mas não... Ela ia todo os dias à minha casa e perguntava PELO LIVRO. E ficava muda, enquanto eu ficava esperando que ela falasse alguma coisa a mais. Então eu dizia que eu o havia emprestado, ou sei lá, que não estava comigo hoje. Ainda não havia chegado a hora... Nenhuma destas vezes ela foi à minha casa me chamar para comer o bolinho de chuva que sua mãe havia feito ou para brincar de elástico com as outras meninas na rua. Ela queria apenas aquele amontoado de paginas, e como isto doía em mim! Ele era mais importante do que uma pessoa de carne e osso, que estava ali, pronta para ser companheira, confidente...
Tudo bem que eu sentia um irônico prazer em ter algo mais do que ela, mas as minhas perdas eram infinitamente maiores que o meu “triunfo”.
Até que um dia minha mãe me fez emprestar o livro para aquela menina de cabelos loiros. O que nem minha coleguinha de cabelos dourados nem a minha mãe sabiam era que, enquanto aquela garota queria ler, eu apenas ansiava por uma amiga de verdade.

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