terça-feira, 25 de maio de 2010

Malu

Autora: Thyare Santana

A vida dela era muito monótona. Casa, trabalho, faculdade... Saía de vez em quando, mas não se pode dizer que ela tinha uma vida social. Não tinha namorado. Os amigos que tinha, podiam-se contar nos dedos da sua mão esquerda. Ou da direita, tanto faz. Tinha muitos conhecidos, mas eram daqueles tipos que só serviam para ocupar a memória de seu telefone, mas que nunca ligavam para ela. Seu celular tinha como principal função marcar as horas e servir de vídeo game enquanto Malu estava no ônibus. Embora não parecesse ela não era feliz. Sempre brincalhona, escondia por trás de seu sorriso sempre amplo um coração amargurado, cheio de tristezas. A única coisa que realmente lhe dava alegria eram os momentos em que sonhava. Quando ficava pensando como seria a sua vida daqui a 5, 10 anos. Malu lutava muito para que tudo aquilo que planejava um dia fossem realidade.
Aquele dia tinha tudo para ser tão normal como os outros... Era uma sexta feira e ela sairia da faculdade direto para a sua casa. Ficaria horas em frente ao seu computador, jogando paciência ou revendo fotos de muito tempo atrás. Ou simplesmente ficar ouvindo música em seu headphone e pensando no homem que realmente amara. E ainda amava naquele momento. Ela sabia que tivera sido amada por ele, mas o que importa??? Ele se fora de sua vida, assim como todos os outros, sem se importar com o tamanho do buraco que deixaria em seu coração... Deixa para lá. Não valeria a pena pensar nisto neste momento. As lágrimas já quase caiam, quando resolveu olhar para mar e simplesmente deixar as imagens vistas passar pelos seus olhos, sem fixar pensamento algum em sua mente. Mas de vez em quando pensava em seu passado, em seu futuro... Seria realmente esta a sua vida??? Viver lembrando-se do que já foi e sonhando com o que viria? Quando esta situação mudaria, meu Deus? Ela agarrara com unhas e dentes a nova oportunidade que lhe fora dada de estudar novamente. Ela tinha voltado a estudar há pouco tempo, e decidida a ser a melhor, usava esta chance para ter um futuro com que sempre sonhou. Ela poderia fazer as viagens que nunca pudera, poderia despertar nas pessoas que passaram em sua vida um arrependimento por ter deixado-a partir. Claro que isto parecia uma besteira aos olhos dos outros, mas para ela aquilo era importante.
Então naquele exato momento parecia ter despertado nela alguma coisa diferente. Uma sensação de a vida dela iria mudar de uma maneira significativa. Uma onda de esperança parecia ter invadido o seu corpo, e ela quase podia sentir esta força dentro dela. As lágrimas correram-lhe a face, alcançando rapidamente o seu queixo. Mas agora parecia ter algo diferente em seu pranto, não era mais totalmente dolorido como quando ela chorara quase todos os dias atrás. Seu choro ao mesmo tempo parecia ter um bálsamo que reconfortava a sua alma, e a fazia transpirar esperanças. Ela tirou um espelho de sua bolsa e começou a olhar-se diante dele e pela primeira vez nos últimos meses conseguia enxergar à sua frente a imagem de uma mulher feliz. Ou pelo menos, que o seria em pouco tempo. Em um súbito momento o sentimento de dor havia se transformado em um nirvana. Em sua cabeça fervilhavam idéias, pensamentos, e a esperança estava se renovando dentro de si a cada minuto que passava. Assim, sem mais nem menos. Como se o dedo de Deus tivesse tocado o seu coração e tivesse curado dele todas as chagas.
Ao chegar ao seu destino Malu desceu do ônibus bem diferente do que tinha entrado. Perecia até que havia entrado em uma espécie de “cabine mágica” que a mudara essencialmente. “Que bom sentir isto”, pensou ela. “Dentro de mim algo diz que minha vida será diferente, que eu realmente encontrarei a felicidade que eu tanto busco. E muito em breve”. Ela resolveu ficar ali um pouco, sentada no banco do ponto de ônibus, sentindo a brisa marinha tocar a sua face suavemente, enquanto fechava seus olhos e deixava a sensação de renovação dominar-lhe por inteira.
Cinco minutos depois, uma multidão havia se aglomerado naquela área. Um motorista invadiu a calçada atropelando uma mulher de 24 anos, que morreu no local. As pessoas estavam curiosas e ao mesmo tempo intrigadas, com a expressão de alegria que o seu rosto apresentava, como se tivesse morrido sem sentir dor alguma naquele momento. Como se estivesse feliz. O bairro parou para admirar Malu, a pobre mulher que morreu planejando o seu dia de amanhã.